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Para o professor de Direito, os escritórios de advocacia perderão espaço para a tecnologia
Quando o escocês Richard Susskind, de 46 anos, publicou O Futuro do Direito,
há mais de uma década, o meio jurídico europeu reagiu com descrença. O
livro mostra como e por que a tecnologia da informação mudará
radicalmente a prática do Direito e logo se tornou um best-seller. Em
junho deste ano, o autor lançará a continuação da obra. Mesmo antes de
chegar ao mercado, O Fim dos Advogados? já causa polêmica. Para o
autor, os advogados podem estar com os dias, ou pelo menos com os anos,
contados. Susskind deu a seguinte entrevista a ÉPOCA.
| ENTREVISTA Richard Susskind |
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QUEM É Escocês, mora no norte de Londres com a mulher e três filhos. Tem 46 anos. É doutor em Direito pelo Balliol College, de Oxford
O QUE FAZ É
professor de Direito do Gresham College, em Londres, e da Universidade
de Strathclyde, em Glasgow, e colunista do jornal The Times
O QUE PUBLICOU The Future of Law (O Futuro do Direito) e Transforming the Law (Transformando o Direito). Em junho, lançará The End of Lawyers? (O Fim dos Advogados?) |
ÉPOCA – Os advogados estão ameaçados de extinção? Richard Susskind – Dei o primeiro capítulo de O Fim dos Advogados? para 30 pessoas
lerem. Alguns advogados e outros não. Nada menos que 27 deles
responderam “sim” à pergunta feita no título do livro. No futuro, a
maioria dos advogados terá de se esforçar para sobreviver. Mas nem
todos serão extintos. Meu papel ao escrever um livro é provocar as
pessoas e encorajá-las ao debate. E não deixar os advogados felizes.
Meu interesse maior é que o acesso à Justiça e aos serviços jurídicos
cresça.
ÉPOCA – Em quanto tempo a profissão estará ameaçada? Susskind –
Em cem anos, a sociedade e a economia serão transformadas radicalmente.
Como já vêm sendo. Seremos tão afetados e modificados pela tecnologia
que nenhuma das regras atuais serão válidas. Em dez anos, o mundo do
Direito já estará em transição. E muitos advogados já estarão
ameaçados. É por isso que eles precisam se modernizar.
ÉPOCA – O desafio, então, deve ser a modernização da profissão? Susskind – Sim. O mercado jurídico será guiado por duas forças. A primeira irá
em direção ao que chamo de “commoditização” (o fornecimento cada vez
mais barato de serviços padronizados). E a segunda força será a da
tecnologia.
ÉPOCA – Como os advogados podem se adaptar? Susskind –
Para entender essas mudanças e adaptar-se a elas, é preciso dar um
passo atrás e pensar nas necessidades dos clientes. Trabalho com
tecnologia legal há 25 anos e tenho feito muitas pesquisas sobre isso.
Os departamentos jurídicos de grandes empresas vivem sob intensa
pressão. Seus quadros de pessoal são reduzidos, e eles têm cada vez
menos dinheiro para gastar com advogados externos. Ao mesmo tempo, têm
muito mais trabalho que antes e precisam cada vez mais de auxílio
legal. A solução desse impasse está relacionada às duas forças que
falei antes, a commoditização e a tecnologia.
ÉPOCA – Como assim? Susskind – É preciso criar estratégias para aumentar a eficiência e a
colaboração. Muito do trabalho feito no meio jurídico é executado com
ineficiência. Há muitas tarefas rotineiras que poderiam ser feitas de
maneira diferente. Vislumbro todas as possibilidades, inclusive a
terceirização. Isso baratearia os custos, e a satisfação dos clientes
seria a mesma. Cada vez mais os clientes demandarão alternativas mais
eficientes. Em meu novo livro, digo que o trabalho legal vai ser
dividido em algumas vertentes. O método tradicional, em que o advogado
lida com cada desafio oferecendo um serviço altamente customizado, é um
luxo que muita gente já não tem condições de pagar. E isso não acontece
só com as empresas. Cidadãos comuns, tanto na Inglaterra como em muitos
outros países do mundo, não têm acesso à Justiça porque os advogados
não costumam cobrar preços razoáveis.
ÉPOCA – A pressão virá do mercado? Susskind – Exatamente. Advogados que não recorrerem a soluções mais criativas e
eficientes, como a terceirização, se tornarão muito mais caros. E podem
ser extintos devido à competição. Outro ponto é o que chamo de
estratégia de colaboração. Um cliente pode dividir custos com outros
que precisam dos mesmos tipos de serviços jurídicos. Isso se aplica às
maiores empresas do mundo e também aos cidadãos individualmente. É
nesse ponto que relaciono o Direito à web 2.0 (tecnologias que permitem
a construção colaborativa de trabalhos pela internet). A internet
encoraja a comunicação e a colaboração. No futuro, teremos comunidades
de clientes dividindo os custos de serviços jurídicos similares. Também
haverá na rede roteiros gratuitos sobre as leis. Esses roteiros devem
ser construídos da mesma maneira como foi a Wikipédia (a maior
enciclopédia on-line). Se refletirmos sobre o desenvolvimento da
internet, veremos que os usuários já contribuem em blogs, wikis e redes
de relacionamento. A maneira como as pessoas se comunicam já mudou e
continua em modificação. Isso também afetará clientes e advogados. A
conseqüência será a difusão dos conhecimentos jurídicos. Advogados que
não quiserem dividir conhecimento serão postos de lado.
ÉPOCA – O impacto da tecnologia nos países em desenvolvimento será o mesmo que nos desenvolvidos? Susskind – Se pensarmos em países pobres, o impacto será menor que em sociedades
avançadas. Mas o impacto da tecnologia em países como o Brasil será
grande, sim. Em muitos países em desenvolvimento, o acesso à tecnologia
está aumentando e continuará crescendo nos próximos anos. Isso pode
aumentar também o acesso à Justiça. Na Inglaterra, apenas as pessoas
muito ricas, que podem pagar advogados particulares, ou as muito
pobres, que conseguem assistência jurídica do Estado, conseguem
recorrer à Justiça. Embora hoje os ingleses tenham muito mais acesso à
internet que populações de países menos avançados, eles também têm
problemas de acesso à Justiça.
ÉPOCA – Os advogados devem aprender com o mundo corporativo? Susskind – Devem, sim. A indústria petrolífera olha o mercado 50 anos à frente.
Claro que esse espaço de tempo é muito distante para o mundo jurídico.
Assim como, nos últimos 20 anos, a tecnologia provocou a substituição
de grandes empresas por companhias mais ágeis, ocorrerá o mesmo com os
advogados. Os escritórios de advocacia não podem achar que não têm
competidores. Cada vez mais haverá publicações jurídicas, websites
abertos. Advogados têm de pensar menos em si e mais nas necessidades
dos clientes.
ÉPOCA – No Brasil, os advogados costumam se dizer necessários para preservar os direitos da população. O senhor concorda com isso? Susskind – Respeito esse ponto de vista. Mas os advogados sempre encontrarão
razões para justificar por que são necessários. Há outras maneiras de
preservar os direitos da população. O Direito não existe para garantir
um meio de subsistência aos advogados. A função dos advogados deve ser
ajudar cidadãos e empresas a entender e aplicar a lei. Mas, se
encontrarmos maneiras diferentes de fazer isso, não precisaremos de
advogados por muito tempo.
Fonte: Revista Época | Edição nº 507 |